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sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Com voz de diva, pastora da Baixada vira fenômeno na internet

Performance explosiva, misturando soul, funk, rock e samba, é febre no YouTube

A pastora Ana Lúcia durante uma apresentação em sua igreja, em Belford Roxo Foto: Gustavo Stephan / O Globo

A pastora Ana Lúcia durante uma apresentação em sua igreja, em Belford Roxo Gustavo Stephan / O Globo
RIO - Há um culto em torno da pastora Ana Lúcia. E ele não se resume às cerca de 150 pessoas reunidas no pequeno e modesto templo instalado no primeiro andar de sua casa, numa rua estreita em Belford Roxo. Desde o ano passado, outras 300 mil — entre elas, a apresentadora Regina Casé, fiel seguidora — se deixaram levar pelo carisma e pela voz incrivelmente soul da religiosa, por meio de um vídeo no YouTube com o registro de uma inflamada apresentação em uma igreja de Nova Iguaçu.

Na gravação, de pouco mais de oito minutos, a pastora, ligada a uma igreja neopentecostal, se diferencia radicalmente de outros nomes da música gospel, um gênero que tem se mantido imune à crise da indústria fonográfica (exemplo disso é o CD e DVD "O poder da aliança", da pastora Ludmila Ferber, que, lançado em agosto do ano passado, já vendeu 109 mil cópias).
Mas, comparada à comportada Ludmila, a pastora Ana Lúcia parece vir de um outro mundo, bem mais quente. Cantando a música "Vem comigo dando glória", um hit de suas apresentações, ela surge no vídeo totalmente possuída pelo ritmo criado pela sua banda de fé, os Gideões, formada por ex-pagodeiros "convertidos".
Por cima de uma selvagem base percussiva e um ritmo que lembra o samba rock, ela espanta seus demônios usando interjeições — como "agora quebra, quebra, quebra" e "tá pegando fogo, tá pegando fogo" — que mais parecem saídas das rimas profanas de um MC de funk. É como se, por um milagre, Aretha Franklin, Jovelina Pérola Negra e Tati Quebra-Barraco tivessem se transformado em uma só pessoa. É ver para crer.
— Acho que canto assim porque meu filho é funkeiro. Nunca fui a um baile, mas estou sempre ouvindo as músicas dele — ela diz, sentada num sofá de casa, ainda suando depois de um animado culto, na semana passada. — E minha família tem umbandista, eu mesma já fui umbandista antes de me converter. É essa coisa bem brasileira, de misturar tudo, não é? E, se eu for pregar como outros que existem por aí, com aquelas músicas chatas, vai cair todo mundo no sono. As pessoas vêm aqui e me seguem porque sabem que sou animada, que gosto de festa.
O culto comandado pela pastora Ana Lúcia em sua Igreja Pentecostal do Evangelho Pleno — todas as terças e quintas, às 19h — parece mesmo uma festa, da qual ela é a grande estrela. O começo da noite é morno, com outros pastores se revezando no microfone, enquanto as pessoas vão chegando ao local. Se fosse um programa de auditório, eles seriam gongados por pecar no quesito afinação.
Mas, quando Ana Lúcia começa a cantar, acompanhada pelos Gideões, a igreja parece tremer. As pessoas gritam e levam as mãos para o alto. A primeira música é "Diabo larga o que é meu", composta pela própria religiosa, que canta com fervor a letra nem um pouco tradicional ("Meu marido é infiel, mas é meu/ Meu filho é funkeiro, mas é meu").
— É um recado para quem abre mão dos seus entes queridos por qualquer problema que surja, seja um vício, um desvio de caráter ou uma diferença qualquer — afirma ela. — Procuro unir as pessoas, em vez de separá-las. Por isso, nos meus cultos todo mundo é bem-vindo, sem distinções. Pode ser gay, pode ser dependente químico, pode ser espírita, é só chegar. Quero festejar e celebrar as diferenças. Não nasci para pregar o ódio ou o medo.
A trajetória da pastora — fã de Alcione e Whitney Houston, e que ainda não tem disco gravado "por falta de dinheiro mesmo" — ajuda a entender esse sentimento agregador. Nascida em Belford Roxo, há 42 anos, ela se converteu aos 22, quando o filho, Leandro, teve leucemia, ainda bebê.
— Minha mãe dizia que eu era louca, e meu marido me abandonou por causa da minha religião — lembra ela. — Hoje meu filho está saudável, e meu noivo está aqui ao meu lado, celebrando comigo.
De volta à igreja, o ritmo é forte, intenso, e, à medida que a música vai progredindo, a maior parte dos presentes começa a dançar, alguns rodopiando de olhos fechados, outros caindo no chão. Contaminada, a pastora pula, dança também e vai cantar no meio da igreja. O transe coletivo é administrado por seus ajudantes, todos eles vestindo camisetas de cor lilás com o nome da pastora nas costas, mesmo uniforme usado pela banda. Do lado de fora da igreja, Leandro, o filho funkeiro, hoje com 23 anos, assiste a tudo respeitosamente.
— A pastora Ana Lúcia tem um carisma inacreditável e uma voz fantástica. Já perdi a conta das vezes em que assisti àquele vídeo no YouTube — diz Regina Casé, que convidou a religiosa para participar de seu programa, "Esquenta!", exibido no primeiro domingo do ano. — Ela nasceu para brilhar.
A participação da pastora Ana Lúcia no "Esquenta!" quase não aconteceu. Desconfiada, a religiosa achou que o convite para ir ao programa era uma pegadinha.
— Quando o rapaz da produção me ligou, com essa história de programa, eu achei que era brincadeira e desliguei o telefone na cara dele. Zoação, não! — conta ela, brincando com sua excessiva precaução. — Depois, vi que o negócio era sério. Mas disse que só ia se pudesse levar a minha banda inteira, que tem 14 integrantes. No outro dia, tinha um ônibus aqui na porta, para levar a gente para o Projac. Foi incrível.
Cachê em oração, não
O vídeo a que Regina Casé e outras 300 mil pessoas assistiram no YouTube foi gravado durante uma apresentação da pastora como convidada de uma outra igreja, uma peregrinação com jeito de turnê que já a levou a outros estados e que ela tenta administrar com mais cuidado depois de algumas experiências nada memoráveis.
— Teve um sujeito que me levou para cantar em João Pessoa e depois queria me pagar com orações, veja só — conta ela, que cobra cerca de R$ 350 por apresentação. — E nem hotel ele me arrumou. Tive que dormir na casa de uma amiga. Hoje, tenho uma pessoa só para acertar minha agenda. Não posso mais passar por essas situações. Tenho aluguel para pagar e família para sustentar.
Mangueirense e vascaína, Ana Lúcia de Andrade começou a cantar quando tinha 5 anos, incentivada por um tio que era músico amador. Quando era adolescente, ouvia Paralamas, Lobão, Leci Brandão e Almir Guineto.
— Eu era saidinha, ia a bailes de soul em Madureira e no Méier. Adorava o som de DJs como o Corello. E sambava muito bem, viu? Parei um pouco com essas coisas quando me converti e virei cantora principal dos cultos por incentivo de um pastor que gostou da minha voz.
O repertório da pastora Ana Lúcia e os Gideões ainda é pequeno. São apenas sete músicas prontas e algumas sendo finalizadas.
— A gente queria poder ensaiar mais, mas não temos como pagar um estúdio. Então, vamos improvisando com o que temos. Mas não tenho do que reclamar. As pessoas adoram nossas apresentações. Tem gente que me reconhece quando vou ao shopping. Até autógrafo me pedem. Mas ainda sonho em gravar um disco. Um dia isso vai acontecer.
Depois de quase cinco horas, o culto daquela noite é encerrado com versão de 15 minutos de "Vem comigo dando glória". Ao final, ninguém mais está sentado. Alguns chegam a pedir bis, como se estivessem num show.
— Para mim, isso sim é a glória — diz a pastora, abraçada ao filho, funkeiro, mas todo seu.

FONTE:O GLOBO

Meu comentário:

Mas isso é o que a Globo deseja ver nos evangélicos E pelos vistos estão encontrando os seus fracos crentes. Tem crentes no Festival Promessas mostrando o seu talento(glória deles), tem crentes no cardeirão saltando tipo pipoca, cançoes sem Cristo ,outros em mesmo programa querem abraçar dançarinas. Aparece agora no "ESQUENTA" essa pastora querendo o ecumenismo , inclusivismo(igrejas inclusivas), e etc. Aparece aínda um CD gospel com título "aliança " com bandeira do movimento LGBT. Até aonde chegaremos com isso minha gente?
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